O dia em que a Terra parou

Uma visão sobre o mercado de M&A neste momento de crise por conta da COVID-19.

Por Luiz Felipe Fleury

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A Covid-19 (Coronavirus) segue exponencialmente abalando o planeta com mortes, perda de empregos, medo e paralisações generalizadas. Estamos diante de um dos momentos mais complexos dos últimos tempos, do ponto de vista humano, e possivelmente econômico.

 

Temos um vírus acelerado totalmente em descompasso com o planeta, que está parado, tomando decisões diárias e, em alguns casos, atrasadas. 

 

Enfrentei algumas crises no mercado financeiro e em consultoria auxiliando empresas, porém a atual é uma das mais difíceis de se fazer projeções. Mesmo sabendo que minhas percepções pessoais podem estar defasadas, quero dar meu testemunho do que tenho observado, conversando com investidores, clientes e bancos para tentar contribuir com as companhias de alguma forma.  

 

Antes de falar de futuro, gostaria de reforçar um ponto para as empresas, principalmente as médias brasileiras, não adiem decisões de sobrevivência enquanto for possível. Analisem rapidamente as opções disponíveis, foquem em medidas para reforçar o caixa, conversem com os fornecedores, vejam alternativas com seus bancos de relacionamento e acompanhem as medidas dos Governos.  

 

Setores que nunca tiveram um dia sem receita foram obrigados a parar. Quando, por exemplo, alguém imaginou que não teriam cirurgias, franquias não abririam ou pessoas não viajariam? Não estava na previsão de ninguém algo dessa magnitude. Portanto, uma das poucas certezas que tenho é a de que alguns setores serão totalmente desestruturados e, mesmo que se recuperem com suporte, não serão os mesmos. 

 

Tenho dificuldade de enxergar a magnitude dos impactos, que dependerá de quatro fatores principais: tempo de duração das restrições, cooperação da população, saúde do sistema financeiro e suporte governamental.    

 

Investidores com visão de longo prazo não pararam suas análises e discussões. Mas, tomadas de decisões exigem previsibilidade. Na conjuntura atual, boa parte acaba se retraindo para tentar identificar qual o patamar de referência.  

 

No grupo de empresas de grande porte e investidores profissionais, muitos estão preocupados com o curto prazo, porém, existe outro grupo que acredita que a volta dos mercados podem vir muito rapidamente após algum sinal concreto de algum horizonte mais saudável. Faz sentido mas a pergunta é quando?

 

Depende de quanto tempo o país ficará parado. Ou seja, sem receita por um período de tempo mais prolongado, as empresas precisarão de recursos volumosos, o governo não conseguirá suprir as necessidades e as instituições financeiras poderão ter inadimplências severas.  

 

Acontece que alguns economistas e profissionais de saúde têm defendido uma abordagem diferente:  num primeiro momento, quarentena total para diminuir a velocidade da doença, faz-se identificação dos infectados e soluções mais assertivas na área de saúde são tomadas. Não sei qual a solução mas, se realmente isso for possível do ponto de vista técnico, poderemos ver as atividades se recuperando lentamente, empresas voltando a girar nem que seja aos poucos, estímulos governamentais nos setores muito prejudicados e incentivos para o Sistema Financeiro que ainda estaria saudável. Qualquer sinal de algo parecido, o mercado deve antecipar o movimento.

 

Nesse caso, irão surgir janelas de captação para setores específicos e empresas sólidas com boas perspectivas de crescimento. Mesmo nesse cenário mais construtivista, muitas companhias terão dificuldades para acessar o mercado pós crise. Apesar de ser ainda cedo para qualquer opinião, como existe a possibilidade de algum tipo de mudança positiva, temos conversado com clientes que estavam em processo de IPO para deixarem os processos prontos para, se possível, aproveitarem qualquer período que possa existir de captação, nem que demore mais do que o esperado. 

 

No mundo de M&A, fusões e aquisições, o número de transações poderão ficar “acumuladas” até que definições mais claras surjam. Seguem alguns fatores que me levam a acreditar nessa situação:

 

  • Houve substanciais captações de recursos para fundos de private equity e venture capital recentemente. Dependendo do investidor final e dos contratos, alguma parte desses recursos estará procurando investimentos;
  • Certas companhias deverão ter que se desfazer de ativos não estratégicos;
  • Setores menos impactados ou beneficiados podem ter negócios na busca de ativos saudáveis;
  • Empresas em dificuldade podem encontrar suporte em investidores mais agressivos;
  • Empresas familiares podem repensar a concentração de risco / ativos;
  • Grandes conglomerados poderão ter acesso a crédito e expandir as atividades via aquisição de empresas que não conseguiram suportar o momento.

 

Cada dia que passa, o cenário mais positivo para economia fica mais nebuloso. Não tenho profundidade para saber quais medidas terão que ser tomadas para se conter o vírus. Mas, sei que devem ser rápidas, com incentivos corretos e com responsabilidade de todos envolvidos nas decisões. O importante é neste momento ficarmos em casa e arrumarmos ações para driblar este momento.

 

Nenhuma crise dura para sempre portanto, os governos devem continuar a agir, a sociedade terá que colaborar o máximo possível e todos terão que ter muita resiliência para enfrentar um dos momentos mais complicados da nossa história recente.

 

Luiz Felipe Fleury é sócio da área de Corporate Finance da HLB Brasil.

Luiz Fleury

Sócio de Corporate Finance

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